09 fevereiro 2006

Web 3.0

por Jeffrey Zeldman

O Google, com a cooperação de renomadas bibliotecas, têm digitalizado livros para torná-los encontráveis. A prática excita os futuristas mas aborrece algumas editoras. Por necessidade, a digitalização cria cópias virtuais. As editoras reclamam que tal cópia viola os direitos autorais, mesmo que o conteúdo do livro esteja escondido do público. A Biblioteca Pública de Nova York, um dos parceiros do Google no projeto, recentemente organizou um debate público sobre o assunto.

Foi enquanto eu esperava por este debate que meu desconforto com a recente onda de um emergente gênero de desenvolvimento web se tornou num ódio mortal.

O grande salão estava lotado. Havia mais ingressos do que cadeiras. Mesmo assim, a poltrona na minha frente permanecia vazia. Cada vez que um esperançoso espectador se aproximava da cadeira – e isso acontecia a cada nanosegundo – o pobre desconhecido da cadeira ao lado tinha que explicar se desculpando, "Desculpe, a poltrona está ocupada."

Logo se tornou claro que o gentil desconhecido estava reservando o lugar, não para um amigo ou colega, mas para um estranho que impôs a tarefa a ele. Enquanto o camarada defendia a poltrona do outro contra uma chuva de participantes, o estranho estava em algum outro lugar mandando ver na champagne que a biblioteca oferecia. Eu fiquei imaginando que tipo de mané pediria a alguém que ele não conhece para guardar seu lugar por meia hora num evento lotado. Quando ele finalmente chegou, eu descobri.

Sinto cheiro de mané

"Você estava na conferência de Web 2.0?", o cara que chegava perguntou, como para agradecer ao outro por ter guardado seu lugar. O gentil desconhecido indicou que não. Isto era todo encorajamento que nosso homem precisava para iniciar um monólogo rico em adjetivos, pobre em fatos e alto o bastante para que metade do salão ouvisse.

De repente parecia que a Web 2.0 não era somente maior que o Apocalipse, mas também mais vantajosa. Vantajosa, quer dizer, para investidores como este cara. Ainda assim, esta nova onda não deve ser confundida com o "boom das .com" do fim dos anos 90:

"A Web 1.0 não era transgressora. Você entende? A Web 2.0 é totalmente transgressora. Você sabe o que é XML? Já ouviu falar de sites bem estruturados? Certo. Bom, de qualquer forma…"

E assim foi, como uma maquininha de obturação.

Primeiro eu tolerei a dor, modificando aquela famosa cena de Annie Hall ("Noivo Neurótico, Noiva Nervosa", filme de 1977 dirigido por Woody Allen):

ELE: Eu ministro um workshop de investimento de risco, então acho que minhas opiniões sobre XML são um tanto quanto válidas.

EU: "Ah, sério? Porque por acaso eu tenho o Mr. Bray aqui mesmo."

Depois eu comecei a morder meus dedos. Num determinado ponto, numa espécia de febre, eu provavelmente gemi. Abençoadamente, as luzes se apagaram e os verdadeiros falantes ganharam a noite.

Mas engolir os pensamentos daquele mané deixou um gosto ruim.

Menos barulho, mais sinal

Agora vamos definir e discordar.

O cara no evento da biblioteca estava apaixonado pelo seu próprio barulho, e o problema com braulho é que ele interfere nos sinais. Qual é o sinal? O que, se for alguma coisa, significa Web 2.0? Qual é a coisa boa que a moda pode esconder?

Bom, existem muitas coisas boas, me parece.

Alguns pequenos times de pessoas antenadas – pessoas que antes, talvez, trabalhavam para aqueles com visões mais limitadas – estão agora seguindo seus próprios instintos e desenvolvendo aplicações web inteligentes. Produtos como o Flickr e o Basecamp são divertidos, bem feitos e fáceis de usar.

Isto pode não parecer muito. Mas nosso meio é um em que, frequentemente, grandes times têm lentamente e custosamente trabalhado para produzir aplicações web complexas cuja usabilidade é praticamente nula e para clientes que possuem, na melhor das hipóteses, alguns vagos objetivos. A percepção de que times pequenos e auto-dirigidos suportados pelo Princípio de Pareto podem criar rapidamente coisas enxutas e que funcionam melhor não é meramente robusto mas também dinâmico. Assim como 100 bandas de garagem surgiram para cada disco do Velvet Underground vendido, a percepção de que um time pequeno pode fazer bem feito motiva 100 outros a tentarem.

Os melhores e mais famosos destes novos produtos web (como os dois que acabei de citar) agrupam comunidades e colaboração, oferecendo novas e enriquecidas maneiras de interação pessoal e profissional. A melhor de suas virtudes é que eles dominam suas categorias, o que é bom para os criadores, pois assim eles são pagos.

Também é bom para a indústria, porque a prospecção de riquezas inspira desenvolvedores espertos que antes passivamente recebiam ordens para começar a pensar em usabilidade e design, a tentar resolver problemas num nicho que eles podem dominar. Fazendo isso, alguns deles podem criar empregos e riquezas. E mesmo onde o dia de trabalho seja mais barato, este desenvolvedores podem alcançar o patamar de usabilidade e design. Isto é bom para todos. Se consumidores podem escolher aplicações melhores que custam menos ou são gratuitas, então a web trabalha melhor, e é mais provável que clientes peçam um bom (em usabilidade e design) trabalho ao invés do usual refugo.

É disso que eles se aproveitam

Além de favorecer soluções mais simples construídas por times mais simples, a coisa chamada de Web 2.0 costuma ter características tecnológicas em comum.

Por trás, ela é quase sempre provida de tecnologias de código aberto como PHP ou (especialmente) Ruby on Rails.

Na frente, é construída principalmente com os padrões web – CSS para layout, XML para dados, XHTML para marcação, Javascript e o DOM para o funcionamento – com algumas coisas da Microsoft no meio.

Quando os padrões com algumas coisas da Microsoft no meio são criados para criar páginas que podem interagir com o servidor sem recarregamento, o resultado são aplicações web iluminadas e, podemos até dizer, parecidas com Flash. Num relatório que foi realmente lido, o escritor / consultor Jesse Garrett deu um nome para o que eu acabei de descrever. Ele chamou de AJAX, e a abreviação não só pegou como também ajudou a interatividade provida destas tecnologias a ganhar espaço no mercado.

Aqui é onde os malandros enganam os confusos. Imagine o seguinte cenário:

Steven, um jovem guru da web, acaba de comemorar seu Bar Mitzvah. Ele recebeu uma dúzia de presentes e deve escrever uma dúzia de notas de agradecimento. Sendo um fã da web, ele cria um "Gerador de Notas de Agradecimento" online. Steven mostra o site para seus amigos, e logo o site ganha tráfego de todos os tipos de presentes, não só os de Bar Mitzvah.

Se Steven criasse o site com CGI e Perl e usasse tabelas para o layout, esta seria a história de um garoto que fez um website para seu próprio uso, talvez ganhando alguma moral no processo. Ele poderia até contribuir num painel da SXSW Interactive.

Mas Steven usou AJAX e Ruby on Rails, o Yahoo pagará milhões e Tim O´Reilly vai implorar para que ele dite as regras.

Quem se importa com o AJAX?

Vamos parar por um momento para considerar duas dores de cabeça relacionadas ao AJAX.

A primeira afeta o pessoal que faz websites. Desenhar AJAX é um saco. O melhor que nossa agência conseguiu foi a abordagem de Chuck Jones: desenhar os traços. Chuck Jones tinha uma vantagem: ele sabia o que o Pernalonga ia fazer. Nós temos que determinar todas as coisas que o usuário pode fazer, e prever os abençoados momentos de cada possibilidade.

O segundo problema afeta todos que usam um site feito com AJAX. Se os significados e convenções da web ainda estão em sua infância, então os significados relacionados ao AJAX estão no útero. Eu ainda estou descobrindo funcionalidades do Flickr. Não novas funcionalidades – as velhas. Você encontra algumas clicando num espaço em branco. Isto é como ler o jornal tendo que passar o "Detector de Tinta Invisível ACME" em todas as partes de papel que você ver até que você encontre algum que tenha uma palavra.

Não estou menosprezando o Flickr. Eu amo o Flickr. Eu gostaria de ter o dom das pessoas que o criaram. Estou simplesmente apontando problemas de design que não serão solucionados da noite para o dia ou por um único grupo. No Ma.gnolia, que está em beta, nós usamos pequenos ícones para indicar que outras ações poderiam ser tomadas e dar uma dica do que estas ações seriam. Nós tivemos sucesso ao perceber que desenhos de 16 por 16 px podem expressar conceitos como "você pode editar estas palavras clicando nelas".

Estes e outros problemas serão resolvidos, muito provavelmente por alguém que está lendo esta página. Alguém que direcione estas questões principalmente para reprimir uma emergente euforia impensada.

Bolha, bolha

Quando comecei a desenhar websites, se o cara do meu lado no avião me perguntasse o que eu fazia, eu tinha que dizer algo como "marketing digital" se quisesse evitar aquela cara de interrogação.

Alguns anos depois, se eu dissesse para o passageiro do meu lado que eu era um web designer, ele iria me parabenizar com um respeito geralmente reservado para um rock star ganhador do Prêmio Nobel.

Então a bolha estourou, e a mesma resposta para a mesma pergunta provocava olhares de pena e de desgosto contido. Me lembro de encontrar um grande empresário no início dos anos 2000 que me perguntou o que eu fazia. Eu deveria ter dito que fico rodeando playgrounds, roubando o dinheiro do lanche das crianças. Ele teria mais respeito por esta resposta.

Eu odiava a bolha. Eu odiava quando a Vanity Fair ou a New York Magazine tratavam fundadores de agências de web como celebridades. Eu odiava aquela mídia de massa e a sociedade que a consome ignorou a web ou a confundiu com uma versão eletrônica e sofisticada da indústria da moda.

Quando a bolha estourou, estes mesmos gênios decidiram que a web não tinha mais interesse nenhum. Engraçado, para mim estava mais interessante do que nunca. Para mim eram pessoas e organizações publicando conteúdo que de outra maneira nem poderiam nascer. Eram pequenas empresas com metas reais entregando valor e crescendo. Eram escritores tradicionais encontrando seu caminho num novo meio digital, ajudados pelos caras como eu e você. Eram novas maneiras de se falar e compartilhar e amar e vender e curar e ser. Incrivelmente imbecil.

De repente os desinformados deixaram de ver um deserto e começaram a ver bloggers, aos quais eles se referiam apenas àqueles que escreviam sobre política, geralmente de extrema esquerda ou direita. A web estava de volta mesmo que ela nunca tenha ido. (É claro, na quinta vez que você ouvir o Wolf Blitzer [jornalista da CNN] dizer "blogger" ou perguntar, "o que os bloggers têm a nos dizer sobre estes eventos de última hora?" a piada perde a graça e você deseja que aqueles que não entendem a web voltem a ignorá-la.)

Mas nada, nem mesmo a histeria dos bloggers políticos, foi tão excitante como a descoberta do dinheiro. Assim que as primeiras propriedades da Web 2.0 corretamente avaliadas começaram a encontrar compradores, uma loucura como aquela outra repentinamente voltou à vida. Quanto o Yahoo gastou? Quem o Google comprou? Ali muito sangue foi derramado.

Mas como convencer os outros tubarões do tanque que este banquete de sangue era diferente do primeiro boom? Simples: disfarce tudo que veio antes como "Web 1.0"

São apenas castelos queimando

Para aqueles que estão batalhando em cima de um software social baseado em AJAX e Ruby, boa sorte, Deus abençoe, e divirtam-se. Lembrem-se que outras 20 pessoas estão trabalhando na mesma idéia. Então deixe-a simples, e lance-a antes que outros o façam, e mantenha seu senso de humor mesmo que você fique rico ou se quebre. Principalmente se ficar rico. Nada é mais desagradável do que um típico multi-milionário.

Para aqueles que se sentem fracassados porque passaram o ano todo aprimorando suas técnicas de web e atendendo clientes, ou tocando seu próprio negócio, ou talvez publicando conteúdo, vocês são especiais e queridos, então mantenha a cabeça erguida, e nunca deixe que alguém veja suas lágrimas.

Quanto a mim, estou cortando o caminho e pulando direto para a Web 3.0. Por que esperar?

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Este artigo foi publicado originalmente na edição 210 da A List Apart e pode ser acessado aqui.

Traduzido por Luciano Rodrigues.

9 Comments:

Anonymous Marcelo Ariatti said...

Salve!

Ótimo artigo, muito obrigado pela tradução.

Abraços!

2:37 PM  
Anonymous Alexandre said...

Parabéns e valeu pela tradução

1:23 AM  
Blogger Teeagoo said...

Muito bom o artigo, ótima tradução. Ajuda a quem está querendo montar uma startup :-)

1:24 PM  
Anonymous kleber Silva said...

Parabéns !!!! Muito bom !!

2:49 PM  
Anonymous Anônimo said...

Well done!
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Anonymous Guilherme Veras said...

Estou aqui para agradecer a tradução ... o artigo é otimo...

8:54 PM  

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