26 setembro 2006

O Alfabeto de um Standardista

por Jack Pickard

É importante notar que existem dois tipos principais de standardistas, o Pequeno Standardista (Standistus minori followum), que segue os padrões perfeitamente e sempre se reporta à autoridade dos grandes nomes no mundo dos padrões, e o Grande Standardista (Standistus argumentatavum maximus) que já é um dos grandes nomes do mundo dos padrões, ou pelo menos acredita ser. Este grupo está sempre preparado para defender sua posição, mesmo que do outro lado não tenha ninguém com uma posição contrária.

A de Accessibilidade

Isto significa o quão facilmente alguém com deficiências pode acessar seu site (apesar de algumas definições também incluirem universalidade). Os dois padrões de acessibilidade mais usados são o WCAG 1.0 e a Seção 508. O Pequeno Standardista coloca selos em seu site para indicar qual nível de testes automáticos ele passou, enquanto o Grande Standardista não gosta do uso de selos, e insiste em conferir cada ponto manualmente.

B de Berners-Lee

Nenhum alfabeto de qualquer coisa relacionada à web está completo sem mencionar Tim Berners-Lee, o homem que criou a World Wide Web. Assim que os standardistas terminam de reverenciar o poderoso TBL, eles geralmente passam um tempo te presenteando com suas frases favoritas. Muitos standardistas acreditam que qualquer coisa dita por Tim Berners-Lee é mais importante e mais correta que qualquer coisa que possa ser dita por qualquer outra pessoa. Podem existir importantes e significativos trechos de informação como “O poder da Web está em sua universalidade. Acesso a todos independente de deficiências é um aspecto essencial.” Mas é importante lembrar que Tim não é um ser supremo, apesar da referência que frequentemente lhe é atribuída.

C de CSS

A única maneira de apresentar seu site, se você quer ser capaz de andar de cabeça erguida sem que as pessoas zombem da sua cara. Para compreender o que você pode fazer só com formatação em CSS, visite o CSS Zen Garden.

D de DOCTYPE

Suas páginas precisam de um DOCTYPE para garantir que os navegadores vão saber manipular o código que elas contém. Existem formulações diferentes de HTML, e seu DOCTYPE vai dizer para o navegador de seus usuários qual delas você está usando para que suas páginas possam ser exibidas corretamente. Ou pelo menos, o mais correto que o navegador permitir. Se você não usar o DOCTYPE corretamente, você estará ativando o Modo Desastrado (Quirks Mode), e se verá sendo expulso da Guilda dos Padrões. A não ser que esteja fazendo isso por brincadeira.

E de Encoding (Codificação)

Um documento HTML deve especificar o tipo de codificação de caracteres que está sendo usado, o que dirá ao navegador como exibir aquele documento (isto também é necessário para validar o documento). As codificaçções de caracteres mais comuns para o Inglês e outras línguas da Europa Ocidental (incluindo o Português) são a UTF-8 e a iso-8859-1, que podem ser especificadas pelo seu servidor ou no cabeçalho do documento usando <meta http-equiv="Content-Type" content="text/html; charset=iso-8859-1" />. Mas você já sabia disso, não é?

F de Firefox

O Firefox é um navegador de código livre disponibilizado pela Mozilla. Ele provavelmente é o navegador mais usado depois do Internet Explorer. Este é o navegador escolhido por muitos standardistas, mas o fato de que muitas pessoas ouviram falar dele e estão o usando obviamente afasta alguns standardistas, que acabam usando o Opera ou o Safari.

G de Grayscale (Tons de Cinza)

Um standardista procura diferentes métodos para garantir que seu site é acessível para todos. Um método bem visual para testar se o contraste de suas cores é o suficiente para que usuários daltônicos as distinguam é converter tudo para uma versão em tons de cinza. Uma ferramenta que tem esta funcção é o GrayBit, chamado assim porque ele torna um pouco cinza os sites que você vê.

H de Handcoding (Programar na mão)

Acredita-se que todos os standardistas olham com desprezo as pessoas que usam editores HTML para produzirem suas páginas, ridicularizando-as e insistindo que tudo deveria ser programado na mão. Sem sentido. Um standardista somente se sentiria superior a você, e não iria te banalizar ou te bater a não ser que seu editor WYSIWYG não produza código de acordo com os padrões.

I de Internet Explorer

O Internet Explorer é o navegador mais usado pela vasta maioria dos usuários de internet. Ele não suporta os padrões tão bem quanto as últimas versões do Mozilla Firefox e do Opera, e tem uma porção de hacks de CSS escritos para tentar fazer com que a coisa funcione como você deseja. Lógico, o Grande Standardista iria se rejeitar a usar algo tão inelegante como um hack, então simplesmente considera que se o Internet Explorer não renderiza conforme a especificação, isso é problema deles. A última versão, IE7, promete trazer uma melhora significativa.

J de Joe Clark

Joe Clark é um jornalista e consultor de acessibilidade que mora no Canadá. Ele é sempre passional, frequentemente tem opinião formada, frequentemente argumenta, raramente diplomático e raramente errado. O Pequeno Standardista regularmente lê Joe Clark para entender no que ele deve acreditar; o Grande Standardista tenta se atualizar com a opinião de Joe, para que possa ser visto como alguém que concorda com ele em muitas questões, porém mantendo alguns desacordos para mostrar que tem sua própria opinião. Seus leitores também acompanham seu blog para verem exemplos intrigantes de tipografia e palavras interessantes como skiamorph.

K de Konqueror

Konqueror é parte do KDE e aclamado por ter sido o primeiro navegador a passar no Acid2test para suporte a CSS (apesar de ser aclamado também por ter falhado ao aplicar uma regra corretamente). No entanto, não-standardistas podem não ter ouvido falar dele por não ser um dos navegadores mais populares. O Konqueror foi criado para ser usado, e está incluso na maioria dos sistemas Linux, o que significa que muitos profissionais de TI nunca nem ouviram falar dele. Muitos standardistas ouviram falar, e uma pequena porcentagem já realmente o usou. Cuidado com estas pessoas.

L de Leis

Adotar os padrões web, principalmente aqueles relacionados à acessibilidade, é geralmente uma boa idéia para reduzir o risco de ser processado por uma pessoa irritada e com deficiência. Em muitos países, existem leis específicas que tratam disso – nos EUA existem a ADA e a Seção 508, na Inglaterra existe a DDA, e a Austrália possui seu próprio DDA. O primeiro caso legal tratando sobre a acessibilidade na web foi posto por Bruce Lindsay Maguire, que processou o Comitê de Organização dos Jogos Olímpicos de Sydney por não disponibilizar um site acessível.

M de Mac e Microsoft

Muitos standardistas de ambos os tipos vão insistir que você deve usar um Mac, porque eles são mais seguros, são geralmente melhores, e são mais bonitos. Mais, eles não foram criados pela Corporação Hostil que é a Microsoft. No entanto, não é obrigatório que um standardista odeie a Microsoft, e muitos deles a defendem porque muitas vezes ela é perseguida só por serem “o cara”. Muitos standardistas até lhe dizem que você deve usar os produtos da Microsoft porque eles são fáceis de usar, todo mundo usa, e vamos ser francos, você não quer ser o Sr. Nerd sozinho no seu canto, quer? Isto certamente não é justo. O fato de usar um Mac não o torna o Sr. Nerd, este privilégio é reservado aos standardistas que insistem em rodar tudo numa plataforma Linux.

N de Nielsen

Dr. Jakob Nielsen é o pai da usabilidade na web, e o homem por trás da coluna quinzenal alertbox. Ele é bastante controverso, mas é extremamente pesquisado e lido. Na verdade ele é tão lido que o Pequeno Standardista de Usabilidade, com seu desejo de seguir uma grande autoridade, não se faria a pergunta “O que Jesus faria?”, mas sim “O que Nielsen diria?”. Assim como Joe Clark, o Grande Standardista não se permitiria ser visto seguindo cegamente e insistiria em ler as evidências antes de tentar apresentar suas próprias conclusões.

O de Open Source (Código Livre)

Código Livre é um método de desenvolvimento de software onde o código está acessível para ser acessado e, teoricamente, modificado por qualquer pessoa. Na prática, existe uma série de diferentes licenças disponíveis que podem restringir o uso (por ex: você não pode desenvolver a partir de um produto gratuito existente e depois cobrar por seu produto). O Firefox, que é produzido pela Mozilla Corporation, é provavelmente o mais conhecido exemplo de um produto de código livre. Muitos standardistas preferem o conceito do software livre do que o desenvolvimento fechado porque acreditam que todos devem ser livres para contribuir para a web. Por outro lado, alguns standardistas estão felizes em usar tanto código livre como fechado, seja porque não acreditam nesta ideologia, ou porque não têm o tempo, o conhecimento ou a inclinação para desenvolver software e estão perfeitamente satisfeitos em deixar qualquer outra pessoa fazer isto por eles.

P de PDF

Arquivos PDF costumavam ser vistos como a maldição da vida de um standardista, pois eram muito difíceis de se fazerem acessíveis. Tradicionalmente, o documento de texto puro era associado a uma pilha de imagens e cores de fundo e era jogado na web sem nenhum semblante de acessibilidade. Felizmente, as novas versões do PDF incorporam muitas características de acessibilidade, então este não é mais o caso. Hoje, é possível tornar documentos PDF acessíveis, então agora eles são apenas quase jogados na web sem nenhum semblante de acessibilidade.

Q de Q uirks Mode (Modo Desastrado)

Quirks Mode é um dos dois modos que os navegadores (mais recentes) podem usar para renderizar seu CSS, sendo o outro o modo Padrão. Não fornecer um DOCTYPE siginifica que suas páginas são renderizadas no modo desastrado. Fornecer um DOCTYPE de HTML 4.01 ou posterior corretamente (isto é, não só incluir o nome, mas também a URL) normalmente significa que você está no modo Padrão (ou modo Quase Padrão, pelo menos). Porém, vale lembrar que o uso do prólogo XML <xml version="1.0" encoding="UTF-8"> antes da declaração do DOCTYPE dispara o modo desastrado no Opera 7 e no IE6 – apesar de dizerem que este comportamento foi consertado no IE7. Henri Sivonen criou uma referência muito útil que mostra como combinar DOCTYPES com modos disparados.

R de Recomendação

Quando o W3C produz uma especificação, ela passa por vários estágios, do Rascunho até a Recomendação final. Na terminologia do W3C, Recomendação não significa “você provavelmente deveria fazer isso”, mas sim “isto é o que dizemos que você deveria fazer”. Uma Recomendação do W3C é equivalente a um padrão em muitas outras indústrias.

S de Seção 508

A Seção 508 do Ato de Reabilitação (EUA) requer que quando agências Federais desenvolvem, protocolam, mantêm ou usam tecnologia eletrônica e de informação, elas devem cumprir uma série de regras que garantem que esta tecnologia atinge pelo menos um nível mínimo aceitável de Acessibilidade.

T de Testes

O Pequeno Standardista garante que suas páginas validam e que elas podem ser verificadas pelo Cynthia Says ou alguma outra ferramenta de testes para o nível de Acessibilidade que está querendo atingir. O Grande Standardista insiste que para ser realmente acessível, o site deve ser testado manualmente, o CSS também deve ser validado, testes reais com usuários reais devem ser conduzidos, e que o site ainda precisa ser testado além de um Internet Explorer rodando num PC com Windows XP. Isto não significa que o Grande Standardista vai necessariamente conduzir estes testes, ele percebe que neste nível é mais importante ser capaz de ensinar aos outros.

U de Universalidade

Universalidade é o princípio de que seu site deve ser acessível para qualquer dispositivo, independente do tipo de navegador, plataforma operacional, resolução de tela, etc. O Pequeno Standardista às vezes inclui isso como parte de sua imagem mental do que a acessibilidade significa (“acessível a todos”). O Grande Standardista insistiria que este tópico seja separado e arquivado dentro de universalidade, e ficaria de fato um pouco triste se você continuasse confundindo os dois conceitos (Se é o que você quer, sinta-se à vontade – vale a pena também citar a “tag alt”, que sempre os desaponta também).

V de Validação

Validação é um processo geralmente conduzido pelo Serviço de Validação de Código do W3C que garante que seu código confere com o DOCTYPE que você especificou para seu documento. Um documento válido é essencial para passar pelo WCAG para o padrão Duplo-A. O Grande Standardista também vai insistir que seu CSS é validado usando o Serviço de Validação CSS do W3C, e também vai ficar atento com qualquer bug do validador.

W de WCAG

O WCAG é o padrão internacional de acessibilidade na web, e é produzido pela Iniciativa de Acessibilidade para Web do W3C. A versão 1.0 das regras é bem conhecida e utilizada, mas estão precisando de atualizações. A versão 2.0 está em rascunho mas não teve uma boa recepção dos standardistas.

X de XHTML

O Pequeno Standardista vai sempre procurar usar XHTML em seus documentos – provavelmente XHTML 1.0 Transitional – porque eles sabem que o XHTML é mais moderno que o HTML 4.01, então eles querem ser vistos usando a última tecnologia. O Grande Standardista tem uma das duas perspectivas: usar XHTML 1.1 como application/xml+xhtml ou simplesmente usar HTML 4.01 Strict. Só para explicar, o Grande Standardista tem um ponto: HTML 4.01 Strict não permite o uso de atributos de apresentação e elementos em desuso na especificação do HTML 4.01, enquanto as duas formas de DOCTYPE Transitional permitem.

Y de Your Standards Need You (Seus Padrões Precisam de Você)

… para irem além do topo, e virarem máquinas de guerra nas trincheiras. Se você realmente se importa com padrões, então você deve estar preparado para falar deles, seja discutindo sobre eles no seu blog, no site de sua empresa, procurando artigos sobre os padrões em todo lugar, participando de fóruns e tentando ajudar os outros, e ajudando a contribuir quando as pessoas que desenvolvem os padrões pedirem por opiniões. No entanto, saiba que quando você dá sua opinião, por mais inofensivo ou incontroverso que você possa achar que esteja, alguém em algum lugar vai usar esta oportunidade para te lançar uma crítica dura e injusta e te fazer parecer um idiota (e o que é pior, eles podem estar certos em alguns pontos). Você pode baixar sua cabeça e simplesmente seguir outras pessoas, ou criar uma carcaça e continuar a mostrar suas opiniões para todos, independente de quem sejam, ou que estejam ou não interessados nelas. A decisão é sua, e este é provavelmente o principal critério que vai determinar se você é um Pequeno ou um Grande Standardista.

Z de ... hm .. Zebra?

Bom, sejamos sinceros, não há niguém de renome no mundo dos padrões que tenha o nome começando com a letra Z, há? Desculpe, Jeffrey o quê?

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Este artigo foi publicado originalmente na edição 223 da A List Apart e pode ser acessado aqui.

Traduzido por Luciano Rodrigues.

PS: Desculpem por ter ficado tanto tempo sem postar... Estava numa correria muito grande. Agora pretendo voltar com mais frequência. Abraços!

6 Comments:

Anonymous Thalis Valle said...

Parabéns pelo artigo. Muito bom, mesmo!

Abraços

11:34 PM  
Anonymous Talita said...

Muito bom o artigo!
Está de parabéns... Encaminhei o link para o pessoal de onde trabalho, apesar de termos os standards a seguir, poucos usam acessibilidade e conhecem padrões, ou se preocupam com a usabilidade. Iniciei uma campanha aqui, e esse artigo está servindo como uma luva para mostra-los.

Parabéns!

8:50 AM  
Anonymous Reginaldo said...

Muito boa a tradução.
Estou encaminhando para todos do meu trabalho.

11:46 PM  
Anonymous Rodrigo said...

Excelente artigo!

5:17 PM  
Anonymous Leonardo Procópio said...

Muito show mano!!
parabens!

3:52 PM  
Anonymous Marcelo Spano said...

Ótima Traduçãom, se eu soubesse o idioma inglês, postaria diretamente lno Alistapart Oficial e aqui, mas como só sei o Português e básico de Inglês....

...Z de Jefrey!!!

Adorei a forma como eles citaram Zeldman.

Muito bom

7:22 PM  

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